Durante os últimos dias, de 24 a 30 de outubro, celebramos com diversas atividades a Semana do Desarmamento, período que se deve ao aniversário da Organização das Nações Unidas (ONU). Pudemos acompanhar nos noticiários alagoanos algumas iniciativas a respeito do tema, com vistas a reforçar a campanha do desarmamento em nosso Estado.
Diante disto, destaco aqui alguns pontos pertinentes no debate sobre a questão armamentista, sendo eles argumentos usados pelos que defendem e pelos que condenam o desarmamento.
Quando aponto, no título deste artigo, o desarmamento enquanto estratégia a caminho da paz, o faço porque acredito, sobretudo nos tempos em que vivemos, que esta trata-se de fato da mais importante ferramenta de se construir a paz em um país: tirar as armas das mãos das pessoas e concentrá-las somente nas mãos das forças de segurança.
Quando alguém se arma, ainda que sob a justificativa (aparentemente justa) de proteger a si mesmo ou a sua família, esta pessoa está – no mínimo – se predispondo a ferir ou matar alguém. Para mim, esta constatação já justifica a vinculação do desarmamento com a paz, porque não se pode imaginar um lugar onde se viva a(em) paz, com pessoas querendo destruir as outras. Mas sei que muitos podem contra argumentar que em tempos de violência, é preciso estar preparado para enfrentar o “mal” até mesmo com mal.
De fato, precisamos tirar as armas dos bandidos, mas isso é papel da polícia e ela tem feito, ainda que não se perceba. Além de sua obrigação natural de reprimir as armas, a polícia agora recompensa com um bônus de incremento financeiro o policial ou guarnição que apreende armas de fogo. Isso é desarmamento involuntário.
Mas o desarmamento voluntário, falo este em que a própria pessoa se dispõe a entregar a arma que tem em casa por entender que, para inicio de conversa, já está em crime permanente. Este passo precisa ser dado por nós, sociedade, homens de bem, que querem segurança sim, mas não para fazê-la com as próprias mãos, nos aproximando da barbárie e do estado de guerra.
Para se ter uma ideia da URGÊNCIA do desarmamento no nosso país – ESPECIALMENTE EM ALAGOAS, trago algumas informações abaixo, com base em dados do Movpaz. Espero que elas façam o leitor compreender esta relação entre desarmar-se para estar em paz.
• 88% dos crimes no BRASIL são praticados por armas de fogo;
• Mais de 60 países no mundo estão se desarmando. O desarmamento não é “invenção” do Brasil;
• O Brasil é campeão mundial de mortes por armas de fogo – são mais 40 mil, enquanto os EUA matam 11 mil por ano com armas;
• 500 mil mortes em 10 anos no Brasil foram por armas de fogo;
• 1 brasileiro morre a cada 15 minutos por arma de fogo – são 95 por dia;
• De 92 mil armas apreendidas, 74 mil foram roubadas das residências de pessoas que tinham para “se proteger”;
• No BRASIL estima-se que existam 16 milhões de armas de fogo em circulação, sendo que destas, 2 milhões estão com as forcas de segurança, inclusive privadas, enquanto 14 milhões estão nas mãos da sociedade;
• Alagoas mata 79 pessoas para cada 100 mil habitantes – a OMS classifica que acima de 10 já é epidemia – o número considerado ‘normal’ é de 6;
• De 1400 ocorrências com armas de fogo em residências em 2010, 893 envolveram crianças – isto porque ou se deixa a arma num local de difícil acesso e ela então não serve para defesa numa situação de surpresa, ou se deixa num local fácil e ela acaba encontrada por crianças que vão brincar, estimuladas pela curiosidade;
• Em tempos de paz, o Brasil tem matado mais pessoas por armas de fogo que países em tempos (anos) guerra;
• Os jovens são as maiores vítimas das armas de fogo, sobretudo homens, negros e pobres;
• Parte altamente considerável do orçamento da saúde no Brasil é gasta com atendimentos a vítimas de armas de fogo, recursos estes que poderiam ser investidos na atenção básica de saúde,
• O fato de ter uma arma em casa, muitas vezes faz com que uma discussão que poderia terminar de outras formas, acabe num velório;
• O Brasil é um dos países que mais mata suas mulheres por armas de fogo – e Alagoas tem os maiores índices deste tipo de mortes – quase sempre por seus próprios companheiros, dentro de casa, após uma discussão;
Com isto quero dizer que construir a paz precisa de ações reais, gestos concretos, ação. Paz não é substantivo é verbo e logo impele ação, movimento. O contrario de paz é a inércia, é a nossa omissão diante de realidades tão dolorosas.
Se você tem uma arma em casa, devolva, você ainda receberá uma recompensa por isso e não será criminalizado e nem punido. Se você conhece alguém que tenha uma arma (e quase todos nós conhecemos alguém) converse com ele, seja um agente de paz e ajude a tirar uma arma do futuro de Alagoa e do Brasil. Essa arma pode, mais tarde, ser usada contra você, eu, alguém que você convive, mesmo contra sua vontade, pois muitas armas são roubadas das casa de pessoas que não pensam em fazer uma maldade, mas acabam armando pessoas más.
Arma não é instrumento de defesa e sim de ataque.
Pense nisso! Entregue sua arma e dê uma chance à paz!
Publico aqui trecho de um artigo do blog o jornalista Merval Viana, no O Globo, intitulado 'Busca pela renovação' - o texto ajuda a compreendermos um pouco mais sobre este fenômeno abordado aqui neste blog na semana passada. Pelo visto, o caminho para se eleger vai, a cada eleição, se afunilando, exigindo assim o 'algo novo' daqueles que se propõe aos cargos públicos. E vai um pouco além: se exige também 'políticos novos'. Boa leitura!
"Confirma-se uma tendência que já havia dominado o primeiro turno das eleições: o número recorde de votos brancos e nulos registrado pela pesquisa Datafolha, juntamente com o grande índice de indecisos às vésperas do segundo turno, mostra o eleitor em busca do novo, insatisfeito com as opções que os partidos políticos estabelecidos lhe oferecem. E não apenas de nomes novos, mas de atitudes novas.
O fenômeno foi exacerbado em São Paulo, onde 30% dos eleitores se abstiveram, ou votaram branco ou nulo, atitude que as pesquisas indicam se repetirá no segundo turno da escolha do prefeito paulistano. Mas essa tendência foi registrada em todo o país, com uma média de 25% de não-voto, índice muito fora do padrão histórico das últimas eleições.
Em várias capitais, mesmo naquelas em que o resultado foi definido no primeiro turno, o não-voto foi o segundo colocado, isto é, o candidato que chegou em segundo lugar, muitas vezes indo para o segundo turno, teve menos votos do que a soma dos eleitores que optaram por não votar.
Tudo indica que estamos entrando em uma fase de nossa vida partidária em que vai se revelando o desgaste de material do sistema que está montado em torno de partidos políticos esterilizados por uma mecânica de coalizão autofágica. O país vai colocando em marcha sistemas que tentam organizar minimamente essa orgia de siglas que nada significam, como a Lei do Ficha Limpa que começou a vigorar aos trancos e barrancos nestas eleições.
Mas ainda temos muito a caminhar para chegarmos a um sistema político-partidário que reflita uma sociedade madura. Em uma votação obrigatória haver 30% de não votantes é sem dúvida uma marca que merece registro dos que se preocupam com o rumo de nossa sociedade, uma clara reação negativa do eleitor médio.
Se o Parlamento representa com justeza a média da sociedade que o elege, há um registro de parte ponderável dela se recusando a continuar participando do jogo nos termos em que ele está colocado. E por outra parte a busca do novo reflete essa espécie de angústia existencial do eleitor, mesmo que se revista de equívocos, como seria o caso de uma vitória de Celso Russomano em São Paulo, ou a de Ratinho Jr. em Curitiba."
Blog do Merval Viana (http://oglobo.globo.com/blogs/blogdomerval)
As eleições deste ano revelaram, país a fora, mais um capítulo da mudança que acontece no perfil do eleitorado brasileiro. É claro que não dá para se falar em mudanças generalizadas, mas de certo são transformações significativas, que permitem vislumbrar, já num futuro bem próximo, realidades até pouco, improváveis.
Não precisamos ir muito longe para observar que o fenômeno do “novo” se espalhou pelas cidades na hora do eleitor escolher seus representantes – prefeitos e vereadores. A ideia da novidade ganhou força e trouxe à cena política nomes realmente novos ou que pelo menos apresentaram a proposta de uma “nova forma de fazer”. Se tomarmos dois exemplos – as duas capitais mais próximas – Maceió e Recife, a proposta identificada pelo conceito de novidade venceu a disputa pelas prefeituras já no primeiro turno, fato pouco crível há alguns meses antes do pleito, quando tudo indicava a vitória de grupos historicamente dominantes nas respectivas cidades. Mas Rui Palmeira (PSDB) e Geraldo Júlio (PSB) se elegeram depois de convencer a população da necessidade urgente deste novo.
O curioso, nos dois casos, é que os discursos de novidade ainda trazem resquícios de estilos antigos, ou pelo menos de nomes antigos na política, o que ainda nos faz questionar o quão novos serão os passos na gestão das cidades. No primeiro (Rui Palmeira, eleito prefeito de Maceió), o futuro prefeito é de origem política bem conhecida, de sobrenome já bem testado nas urnas e no segundo caso (Geraldo Júlio, prefeito eleito do Recife), a influência do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, foi extremamente determinante no resultado – Geraldo nunca havia disputado uma eleição antes. Não que necessariamente estas ligações e origens sejam pesos negativos, mas é preciso lembrá-las. De certo, a expectativa de que esta novidade se mostre nas ações deve ser correspondida pelos eleitos, caso contrário, o “mais do mesmo” não deve agradar a quem apostou nestes nomes.
O fenômeno deve crescer ainda mais, em virtude da falência do estilo sempre mesmo de se conduzir as discussões políticas nos municípios, onde está a vida da população. Movimentos em todo o país sinalizam isto. Pelo menos mais dois partidos deverão se apresentar nas eleições de 2014 defendendo a proposta do “novo” – e não é porque virou moda, mas sim porque representa a resposta do povo aos “profissionais” da política e seus modos de administrar e fazer política.
Um recado está ficando evidente com o novo das urnas: é urgente mudar a forma de lidar com as pessoas e com a coisa pública. E nem sempre é no sangue e na herança genética que esta mudança estará representada. As ideias mais eficazes e propositivas para as nossas “novas cidades”, em muitos casos virão de mentes nem tão conhecidas e de sobrenomes nem tanto tradicionais: é o novo que surge do povo.
Em tempo: em muitas cidades as alternativas que se apresentaram com a proposta de mudança não tiveram o mesmo êxito. Realidades diferentes? Talvez não. Apenas em muitos deles a novidade apresentada se propunha a ser pior que a realidade já encarada nestes municípios. Acho que seja o caso de nossa querida Palmeira dos Índios. Mesmo assim, a mudança por aqui pode ser vista na eleição do parlamento mirim, com novos nomes, que prometem novidades. Que venha o novo! E que conte com nossa ajuda para se tornar realidade, porque não basta eleger o novo, é preciso apoiar as transformações que virão em consequência desta escolha e fiscalizar se de fato elas estão acontecendo.
Faço aqui uma provocação para refletirmos nos dias de hoje, quando muito tem se falado de violência. Como fomos permitindo que se banalizasse em nosso meio, em nosso dia a dia o valor pela vida? Como os atos de violência foram ganhando nossas casas e nosso cotidiano e chegaram a se tornar algo “normal” e até mesmo aceitável...?
Perdemos quase que completamente o valor pela vida humana. Tornou-se algo normal e sequer tira mais nossa paz presenciarmos cenas de violência, corpos estirados no chão, jogos e filmes que estimulem a violência e as mais diversas formas não pacíficas de resolução dos conflitos, novelas que estimulem a vingança e tantas outras coisas...
Viramos fãs de programas que exploram a violência em troca da audiência, fomos ficando ávidos por esse fenômeno, insaciáveis por cenas de muito sangue, de muita violência, ao ponto de termos tornado o "esporte" MMA algo comum de vermos até na TV aberta. Uma verdadeira aberração que preza pelo sangue, pela violência e pela brutalidade entre pessoas, estimulados e incentivados por tantas outras.
O mais interessante é que assistimos a esse fenômeno no mundo inteiro, sobretudo na cultura ocidental, mas o que me constrange e me faz refletir ainda mais é o fato de que isso aqui no Brasil ganhou um tamanho incrível. O detalhe: neste país a briga de galos em "rinhas" é proibida. Mas o que percebemos é que a rinha de seres humanos é algo normal e até estimulada como esporte.
Repito, acho importante e defendo a proteção aos animais indefesos que sempre foram utilizados de maneira violenta para saciar o desejo sangrento de pessoas cada vez mais formadas na violência como algo que estimula suas emoções. O que defendo é implesmente que tenhamos a mesma atenção e cuidado com a vida humana, com a nossa espécie, que tem sofrido mutações e nos transformado a cada dia em insensíveis seres que preferem eliminar seus problemas a resolvê-los. Observemos que jogos, desenhos e filmes tem ocupado os dias de nossas crianças e jovens. Quais programas e filmes tem nos roubado a atenção. Quais ensinamentos temos extraído de programas que nos estimulam a eliminar quem ou o que nos incomoda...
Sei que muitos terão os mais diversos argumentos para tentar justificar tal proeza, mas coloco essa provocação para refletirmos: que vida vale mais, a de seres humanos ou a dos galos? Devemos proibir somente as rinhas de galos em nome das vidas indefesas dos animais? E as vidas humanas?
Não podemos depositar todas as nossas esperanças no plano. Precisamos olhar para aquilo que nós, em nossas limitações, em nosso dia a dia podemos fazer para tornar nosso estado um lugar melhor de se viver.
Que Alagoas tem vivido tempos difíceis no quesito violência, disso todos já sabemos. O que muitas vezes nossa amnésia generalizada não nos permite acompanhar é o percurso que fora percorrido até chegarmos a estes números e a estas posições de "campeões" em violência e criminalidade. A comodidade é sempre mais tentadora do que encarar a verdade dos fatos. Os índices de homicídios e de criminalidade violenta em nosso estado vem aumentando de forma assustadora há pelo menos 10 anos e não somente nos anos deste governo, como ignorantes afirmam com tanta ênfase.
Qualquer observação feita com mais atenção ao números da violência no Brasil e em Alagoas, através do relatório denominado Mapa da Violência, por exemplo, dará conta que o crescimento da violência é um problema que não atinge somente o nosso estado, mas todo o país. Nenhum estado brasileiro tem índices de homicídios aceitáveis. Mesmo aqueles que experimentam redução de seus índices ainda estão longe da paz desejada.
Outra constatação possível ao analisarmos os números é a de que nos últimos anos houve uma interrupção nesse crescimento disparado que vínhamos assistindo. Chegamos a um crescimento de quase 300% dos índices e ali paramos. Esse é o problema. Paramos e estancamos a violência em um patamar inaceitável, índices de guerra civil. Por isso que cada vez menos nos sentimos seguros para fazer qualquer coisa, desde as mais simples, como sair de casa para trabalhar ou para um lazer. É essa sensação de insegurança que tem crescido em nós nos últimos meses, mais até que os números. Talvez isso se deva também ao fato de que esta mesma violência, há muito tempo presente nos bolsões de pobreza e miséria, nas favelas e grotas de nossas cidades, nos locais sob domínio do famigerado crack, bateu a porta dos nossos vizinhos e a nossa.
Agora aguardamos com grande expectativa pelo Plano de Segurança que deve ser anunciado na próxima quarta feira pelo Governador e pelo Ministro da Justiça. Temos depositado nossas esperanças neste plano, na certeza de que ele dará certo, até porque se propõe ser modelo para todo o país, reunindo as mais diversas experiências positivas, nos mais diferentes estados do Brasil, quando o assunto é segurança pública. E o plano de fato deve surtir efeito. Pela integração de todos os atores, poderes, esferas e estratégias, marchando juntos rumo a mesma direção, com prazos e metas estabelecidas e monitoradas. O plano não se limita a resolver somente o problema deste momento, mas também não olha apenas para frente, sem considerar o caos atual. Ele é complexo e cheio de detalhes que o tornam robusto. Deverá devolver-nos um pouco da sensação de segurança que perdemos.
Mas não podemos depositar todas as nossas esperanças no plano. Precisamos olhar para aquilo que nós, em nossas limitações, em nosso dia a dia podemos fazer para tornar nosso estado um lugar melhor de se viver. E não estou falando aqui de fazer justiça com as próprias mãos.
Em nosso cotidiano precisamos identificar quais comportamentos podemos ir, aos poucos, modificando e transformando, a fim de nos tornarmos mais pacíficos. Fomos moldados de forma violenta em toda nossa vida e reproduzimos isso de forma quase natural e imperceptível. É preciso acreditar na paz, não naquela paz da pombinha branca, subjetiva e utópica, distante do mundo real. Mas é preciso acreditarmos e promovermos a paz nas nossas ações e atitudes diárias, na maneira como conduzimos nossas vidas, desde os atos mais simples, de como nos relacionamos com os da nossa casa, da nossa rua, do nosso prédio, do nosso trabalho, estudo, etc. A maneira, quase sempre violenta de como lidamos com nossas realidades de conflito precisa ser repensada e daí teremos isto sendo, aos poucos, reproduzido na vida social. Se esperarmos que a violência vá ser eliminada somente com a repressão, ainda que legitima, realizada pelo aparelho de polícia e de justiça, assumimos a condição de impotentes perante a cultura de violência que nos ronda e que nos trouxe até aqui. Desta forma, nos rendemos completamente a ela. Depositemos sim nossas esperanças na força coercitiva, no "braço forte" do estado que deve se manifestar nos próximos dias com a ações do plano, mas observemos também de que modo podemos ir mudando nossa forma de ver e lidar com o mundo e seus conflitos cotidianos, investindo em uma cultura de paz que passa sobretudo por nós e pelo nosso esforço, pela mudança no conjunto de nossos comportamentos. Porque se quisermos resolver o problema da violência em nossas terras com mais violência (ainda que legitimada pelas forças de polícia) chegaremos ao que alertava Gandhi quando exortava que "em terra de olho por olho, ficaremos todos cegos".
Porque amamos nosso estado e queremos vê-lo em condições melhores e em dias de paz, sejamos também nós, "fazedores" e promotores desta paz que desejamos. É preciso irmos para além dos protestos e gritos de pedidos por paz.
Afastemo-nos da cômoda posição de somente querer e esperar pela paz que "brotará" da ação de outros e assumamos a posição de protagonistas desta desejada paz em nosso lugar, nossa querida Alagoas.
Disponibilizo aqui um artigo de autoria de Dom Henrique Soares, Arcebispo auxiliar de Aracajú, muito pertinente para os tempos em que vivemos de um Estado "profundamente laico" e que esqueceu de Deus. Recorro a sabedoria deste homem para que aprofundemos nossas experiências com o Absoluto, enquanto caminhamos peregrinos rumo à Ele.
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Recordo uma frase que li há algum tempo: "Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará". - Está aí. Estas palavras debochadas são do jornalista André Petry, da Revista Veja. Nunca as esqueci. Para esse senhor, o direito de zombar da religião dos outros é sagrado. Sagrada é a liberdade de imprensa, sagrada é a democracia, sagrado é o ateísmo. Só Deus não é sagrado!
Não compreende o simplório bem-pensante, que o respeito pela religião dos outros é a atitude inteligente e séria de quem, mesmo sendo ateu, compreende que a existência é um mistério tão profundo que faz com que o descrente, ao menos por sábia modéstia, se pergunte: “E se for verdade que Deus existe?” Como também o crente sério e responsável respeitará os ateus, pois, vez por outra, sente a alfinetada de uma incômoda pergunta: “E se não for verdade?” Pense bem: quem não crê, se for maduro e inteligente, perceberá que a existência é um mistério indevassável, com mais perguntas que respostas e, por isso mesmo, será modesto no seu ateísmo. Quem crê de verdade, tem consciência que o Deus verdadeiro nos ultrapassa, não pode ser manipulado e totalmente explicado: quem compreender o seu Ser? Quem pode esquadrinhar o seu agir? E, por isso mesmo, o crente maduro sabe não possuir todas as respostas nem pode ter o Deus vivo na palma da mão... O crente maduro é modesto na sua fé, ainda que convicto. É exatamente essa sábia modéstia de quem não crê e a atitude de eterno peregrino do Absoluto de quem crê que cria o espaço do respeito mútuo. Em outras palavras: um ateu profundo e sincero sempre será tentado a crer; como o crente profundo e sério sempre será beliscado pela ameaça da descrença. Aqui ambos se encontram, aqui se respeitam e compreendem que por mais que tenham posições diferentes ante o mistério de Deus, estão diante de uma Realidade que ultrapassa a pobre razão humana.
Mas, convenhamos, é esperar demais de alguns simplórios que se metem a falar de Deus, crendo ou não crendo, com eufórica leviandade... Como esperar que toupeiras voem como águias?
Quanto ao absoluto valor da democracia, da liberdade de imprensa e liberdade de expressão, não são valores absolutos não! A liberdade é certamente um valor, mas só Deus é Absoluto! Efetivamente, nenhuma religião deve militar contra o homem ou desconhecer-lhe a dignidade fundamental. Mas, atenção: quando um sistema democrático torna-se ateu militante e inimigo da religião, quando se torna espaço de degeneração de valores, já não mais pode ser considerado um valor. Repito: nada é absoluto fora de Deus! Os crentes só adoramos a Deus; não a democracia, não a liberdade de imprensa, não o neopaganismo iluminista que devora a alma da nossa civilização!
Só para uma ulterior reflexão, fiquem estas palavras de João Paulo II, no seu livro Memória e Identidade: “A ética social católica apoia, por princípio, a solução democrática, porque mais condizente com a natureza racional e social do homem. Mas, longe dela – é bom especificá-lo! – canonizar este sistema. A verdade é que cada uma das três soluções possíveis – a monarquia, a aristocracia e a democracia – pode, em determinadas condições, servir para a realização do objetivo do poder, isto é, do bem comum. Entretanto, pressuposto indispensável de qualquer solução é o respeito das normas éticas fundamentais... Diversas formas de degeneração dos sistemas nomeados já foram classificadas na tradição grega: assim, em caso de degeneração da monarquia, fala-se em tirania; e, para as forma patológicas de democracia, Políbio cunhou o termo ‘oclocracia’, isto é, o domínio da gentalha... A lei estabelecida pelo homem tem limites concretos, que não pode ultrapassar: os limites fincados pela lei natural, com que o próprio Deus tutela os bens fundamentais do homem”.
Tenho bem consciência de que estas letras podem escandalizar alguns. Não é meu intento. Gostaria apenas que fizessem pensar. A verdade é que nem tudo pode ser feito ou dito em nome de uma pretensa liberdade sem limites, que não passa de um egoísmo exacerbado e de uma idolatria do próprio eu, que torna impossível qualquer sadio convívio social! A democracia é ótima e deve ser buscada, construída e defendida, inclusive daqueles que a degeneram por um conceito absurdo de liberdade que, alienada do bom senso, solapa todos os valores.
Uma entrevista, no mínimo curiosa, publicada no jornal Gazeta de Alagoas deste domingo (22) traz o ex coronel Manoel Cavalcante se apresentando como uma pessoa da paz desde que nasceu e afirmando que sempre trabalhou pela paz. As afirmações do ex coronel quanto a uma suposta diplomação como "agente formador da paz" me levam a um questionamento quanto ao "agente da paz" que ele diz ser desde que nasceu.
De que paz Cavalcante está falando? A paz enquanto conceito que muitos de nós temos. Para muitos, a paz é a ausência de violência apenas, por isso é tão comum ouvir afirmações de que temos um final de semana de paz quando temos menos homicídios ou que nossa cidade deixou de ser um lugar de paz porque cresceram os índices de violência, assaltos, assassinatos, etc. Entendemos a paz enquanto um momento no qual as pessoas não estejam "se matando".
Outro dia encontrei um outdoor em um determinado Estado que apresentava a imagem de alguns artistas vestidos de policiais com a frase: "Paz é a gente que traz!" numa alusão ao trabalho da polícia como promotora de paz. É disso que estou falando, desse entendimento de que a paz é fruto, somente, de uma boa repressão policial, de bandidos presos, presídios abarrotados, isto é paz, segundo essa ideia. Diante desse conceito, o ex oficial, temido e apresentado sempre como o mentor da "gangue fardada", autor intelectual de diversos crimes, não erra quando se diz uma pessoa que sempre trabalhou pela paz. Para pessoas que tem uma visão tão limitada do que é a paz, ele, bem como tantos outros, até mesmo o Coronel Amaral (aquele que defende que bandido bom é bandido morto) são verdadeiros promotores da paz.
Mas essa é a paz que queremos?
É essa a paz que o caro leitor espera?
Estaria certo o ex coronel em se dizer uma pessoa de paz? O que acham?
Ressalto que o papel da polícia e da justiça (repressão legítima) são fundamentais para conter uma situação de violência, mas não é somente essa a ação para se enfrentar a violência e se chegar a paz. Outras frentes como o desenvolvimento de políticas sociais e sobretudo ações de promoção de uma cultura e de um comportamento de paz são essenciais neste aspecto.
De parabéns o ex oficial pela iniciativa de participar desse tipo de atividade durante o seu período de detenção. Não comungo com aqueles que questionaram a atividade desenvolvida pela secretaria. Acredito e defendo que o Estado aproveite o tempo de prisão para desenvolver ações que levem aqueles que ali estão a se perceberem possíveis de serem novamente pessoas de bem, aceitas enquanto cidadãos na sociedade, após pagarem aquilo que lhe foi determinado pela Justiça em virtude dos seus delitos. Mas felizmente entendo que os conceitos de paz no qual embalamos nossas vidas são bem diferentes.
*Em tempo, o Senhor Cavalcante cometeu um "equívoco" ao afirmar que a Secretaria "pediu sua colaboração". Sobre esta questão a Sepaz já se manifestou através de sua Assessoria de Comunicação informando que ele participou do ciclo de palestras promovido pela mesma em parceria com a Sgap na condição de ouvinte, mesma forma que seus demais companheiros de detenção. Certamente não se trata deste tipo de paz que ele conhece que aquela secretaria se propõe a promover.
Lamentavelmente assistimos no dia de ontem a “Suprema” corte do nosso país julgar que o aborto de crianças anencéfalas não é crime. Digo lamentavelmente porque de fato o é.
Vivemos em um país que a partir de agora entende que seus filhos mais débeis, mais frágeis devem morrer antes mesmo de nascer. E neste mesmo país se protegem filhotes de todas as espécies com uma determinação excepcional. Nada contra a guarda que se faz em nome dos filhotes (aqui destaco os ovos de tartaruga - Se alguém destruir esses ovos nas áreas de desova comete crime contra a fauna, espécie de crime contra o meio ambiente - Lei nº 9.605/93).
Também sou favorável a essa proteção patrocinada pelos ambientalistas e pelos governos que sensibiliza a todos. Entretanto precisamos ser lógicos e estender esse raciocínio a espécie humana (deveria ser o contrário, mas...). Estamos falando aqui da cultura de sacrifício, onde aqueles que não são perfeitos devem ser sacrificados, mortos, abortados, antes que causem pânico, perplexidade ou “excesso de piedade” nas pessoas.
É a mesma cultura do Big Brtoher, que há mais de uma década temos enfatizado no Brasil, onde aqueles que não nos servem como desejamos, nós os eliminamos, essa mesma cultura que faz a violência campear em nosso país, porque se torna mais “prático” eliminar os diferentes a conviver com eles.
Para que lançar mão de uma gravidez se minha criança não vai nascer perfeita e linda? Para que entrar num jogo se não for para ganhar? Para que então viver se um dia todos vamos morrer? Começamos a legitimar a perda definitiva de nossos valores enquanto pessoas. Iniciamos um processo gradual de degradação do conceito de pessoa humana. Salvem as tartarugas indefesas! Morte às crianças indefesas e frágeis antes que elas cheguem a vida e nos causem horror! Esse é o grito que nosso país, através de sua suprema corte proclama em nome de nossa nação. Isso sem contar que esta decisão amplia a possibilidade para que as outras formas de aborto sejam aprovadas no Brasil.
Então O que significa a vida? O que significa a gravidez? A vida começa a ser colocada em questão no Brasil. Detalhe: a vida humana. Porque a vida animal já se entende importantíssima e inviolável – é crime! Estamos começando a considerar que quem tem deficiências não devem viver, não precisa viver, porque isso causa um desconforto e um mal-estar aos que são “perfeitos”. Isso abre uma série de precedentes que prefiro nem começar a comentar porque são macabros. Vamos esterilizar as pessoas não saudáveis do nosso meio? Morte aos “anormais”? É isso que começamos a dizer?
Em parte quero chamar a atenção para um Congresso Nacional paralítico que se permite ser ultrapassado constantemente pela justiça que não espera pela sua letargia e começa a decidir questões importantes ignorando a vontade popular de um país inteiro, que foi escanteado – como de costume nas decisões do STF e do próprio Congresso – na sua opinião a respeito do tema.
Trago aqui a consideração do caríssimo Arcebispo Auxiliar de Aracajú, o alagoano Dom Henrique Soares: “A ‘mãe gentil’ a partir de agora será assassina de seus filhos mais débeis. Que pena, Brasil!”
E concluo deixando um trecho da nota da CNBB sobre a decisão do STF, para nossa reflexão:
“Legalizar o aborto de fetos com anencefalia, erroneamente diagnosticados como mortos cerebrais, é descartar um ser humano frágil e indefeso. A ética que proíbe a eliminação de um ser humano inocente, não aceita exceções. Os fetos anencefálicos, como todos os seres inocentes e frágeis, não podem ser descartados e nem ter seus direitos fundamentais vilipendiados!”
Começamos hoje uma nova forma de relacionamento através do portal minutopalmeiradosindios.com.br. Graças a esse espaço poderemos conversar sobre diversos temas de modo aberto, franco e verdadeiro. De modo particular três temas devem ocupar mais frequentemente este espaço: um olhar crítico sobre questões religiosas, o bate papo sobre política e um tema relativamente antigo, embora cada vez mais novo, atual e necessário: a PAZ.
Entretanto, outros diversos temas e tantas outras questões também estarão aqui, de forma clara, provocando discussões e trazendo para o debate assuntos atuais.
Espero contar com sua amizade e fidelidade a este espaço, dando-nos sempre o prazer de encontrá-lo aqui, no Minuto Palmeira.
@AdalberonJr
Natural de Palmeira dos Índios atuou na política estudantil de Palmeira e Alagoas, onde começou seu envolvimento com a política partidária. Católico, sempre esteve envolvido com o movimento carismático e atualmente é membro da Comunidade Doce Mãe de Deus. Entusiasta e defensor da promoção de uma cultura de paz é funcionário público, atualmente atuando na Secretaria de Estado da Promoção da Paz e assessor parlamentar.